Os barbudos voltaram

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Os barbudos voltaram

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barbudo Os barbudos voltaramVoltaram as barbas e eu não poderei andar na moda. Nasci com pouco pelo. Cresci com pouco pelo. E para piorar o quadro, agora estou ficando careca, coisa de vencimento da data de validade. Cabelo não nasce em garrafas, dirá aquele amigo cruel.

As barbas voltaram e agora proliferaram pelos ambientes descolados. Apenas raramente, elas habitam as barbearias.
Frequentam salões de beleza com lounge, música ambiente e profissionais que se vestem como estivessem chegando a uma discoteca. Servem chá e cafezinho com biscoitos aos clientes. Cobram o olho da cara.
Com o retorno das barbas, a profissão de barbeiro voltou a ser apreciada e seus profissionais agora são cultuados como os chefes de cozinha e os dj’s, outros artistas em voga. E são tratados como uma espécie de Eduardo mãos-de-tesoura de tantas ‘Hollywoodes’, inspirados jardineiros que dão formas esdrúxulas e radicais aos seus usuários.
Se são novidade no Ocidente, os barbudos jamais saíram da moda em lugares como o Oriente Médio, por exemplo.

Quando criança reverenciei três barbudos.
Primeiro, Deus, que vem acima de todas as coisas, como me ensinaria o padre João, um holandês com cara de mau, que jogava baralho e bebia cerveja no bar Chave de Ouro. Aos domingos ele dava missa.
Pelos olhos do padre João envisionei um velhinho na casa dos sessenta e tantos anos, com uma barba à Walt Wittmam, severo, austero, sisudo, mas de bom coração. Poucos teriam visto os dentes de Deus, que na minha teoria seria homem de poucos sorrisos.

Já o seu filho Jesus, moço guapíssimo e de olhos azuis, um solteirão bem ao estilo de Claudio Nucci da década de 1980, tinha a sua barba mais comportada, ligeiramente fora de lugar. Fosse um mortal descomprometido com as causas divinas e vivesse no mundo de hoje, faria tremendo sucesso com as moças, tão bonito que era.
O terceiro barbudo era o velho Nicolau, habitante da Lapônia, que na noite de 24 de dezembro tinha o hábito de descer pelas chaminés das casas trazendo presentes para a criançada, mas que nunca trouxe a minha Caloi. Deve ser porque na minha casa não tinha chaminé.
E aquela Caloi tão desejada, tão esperada, jamais aterrissou em São Raimundo.
Naquilo que cresci, a bicicleta se transmutou, ganhou outras formas, e ainda assim não chegou.
Menino que não ganha Caloi se torna um homem conformado, mas que guarda um vazio. Estou neste grupo.
Somos vítimas da síndrome da Caloi que nunca veio e muitos de nós frequentamos  os divãs dos psiquiatras em busca de refrigério.
Outros, como eu, falam baixinho pelos cantos, sempre que a bicicleta transmutada vai parar na casa do vizinho. Somos quase silenciosos. Ruminamos miudinho.
A verdade é que todos nós envelhecemos, menos papai Noel, que continua cheio de vitalidade. O velhinho não prescreve, notaram? O que me faz pensar nesta coisa de envelhecer.

Quando eu era menino os homens ficavam velhos muito cedo. E isto mudou para muitos de nós.
Com quarenta anos de idade, meu pai já era uma espécie de rei Salomão, sem barba ou bigode, já que ser imberbe na nossa casa é hereditário.
Com os avanços da ciência o conceito de velhice mudou.
Tratamentos a laser remendaram as calvícies, os bisturis deceparam as barrigas e os dermatologistas transformam o mapa da pele em superfícies sedosas e sem rugas. Sem falar no surgimento dos nutricionistas e das academias de ginástica.
Seja pela busca da beleza ou da longevidade, o cinquentão é o novo trintão. O sessentão é o novo quarentão. E tem muito setentão batendo um bolão, graças ao laboratório Pfizer, detentor da patente do Viagra.

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